
Foto: divulgação da internet
O tratamento que revolucionou o combate à obesidade também acende um alerta: quando usadas corretamente, podem ajudar pacientes a perder peso e controlar doenças. Mas, sem indicação e acompanhamento médico, podem trazer consequências graves.
Elas ganharam as redes sociais, viraram assunto entre celebridades e passaram a fazer parte da rotina de milhares de pessoas que desejam emagrecer.
As chamadas “canetas emagrecedoras”, como são popularmente conhecidos medicamentos à base de semaglutida, tirzepatida e outros agonistas dos receptores de GLP-1, representam uma das maiores revoluções recentes no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2.
Mas existe uma pergunta que precisa ser feita:
Essas canetas são mocinhas ou vilãs?
A resposta não é tão simples.
Elas podem ser importantes ferramentas terapêuticas quando corretamente indicadas, prescritas e acompanhadas por profissionais de saúde. Porém, o uso indiscriminado, a automedicação, doses inadequadas e a utilização de produtos irregulares podem transformar uma ferramenta médica em um risco à saúde.
A própria Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alerta para o uso inadequado desses medicamentos e para eventos adversos graves, incluindo casos de pancreatite aguda. (Serviços e Informações do Brasil)
O QUE SÃO AS “CANETAS EMAGRECEDORAS”?
O termo popular reúne diferentes medicamentos injetáveis que atuam sobre mecanismos relacionados à saciedade, controle da glicose e ingestão alimentar.
Entre os princípios ativos estão:
Semaglutida
Tirzepatida
Liraglutida
Dulaglutida
Outros medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1
A semaglutida, por exemplo, imita a ação de um hormônio relacionado à regulação da glicose e da saciedade.
Já a tirzepatida atua sobre dois sistemas hormonais, GIP e GLP-1.
Na prática, esses medicamentos podem reduzir o apetite, aumentar a sensação de saciedade e diminuir a ingestão alimentar, além de melhorar o controle da glicose em pessoas com diabetes.
MAS ELAS REALMENTE FAZEM EMAGRECER?
Sim.
Os estudos clínicos demonstraram que medicamentos dessa classe podem produzir perdas de peso significativas em determinados pacientes.
Mas existe um ponto fundamental:
Não existe uma “caneta milagrosa”.
Os resultados dependem do medicamento utilizado, dose, tempo de tratamento, características individuais, alimentação, atividade física e acompanhamento clínico.
A Anvisa, por exemplo, aprovou o uso da tirzepatida para controle crônico do peso em adultos com IMC igual ou superior a 30 kg/m², ou a partir de 27 kg/m² quando existe pelo menos uma condição relacionada ao excesso de peso, como hipertensão, dislipidemia, apneia do sono, doença cardiovascular, pré-diabetes ou diabetes tipo 2. (Serviços e Informações do Brasil)
No caso da semaglutida, existem indicações específicas para controle do peso e, em determinadas situações, também para redução do risco cardiovascular. (Serviços e Informações do Brasil)
E QUANTO PESO UMA PESSOA PODE PERDER?
Essa é uma das perguntas que mais aparecem nas redes sociais.
Mas não existe um número universal.
Algumas pessoas apresentam grande redução de peso, enquanto outras respondem menos ao tratamento.
Além disso, perder peso rapidamente não significa necessariamente perder apenas gordura.
Pode haver perda de massa muscular, especialmente quando a alimentação é inadequada e não existe treinamento de força.
Por isso, o acompanhamento deve avaliar não apenas o número mostrado na balança, mas também:
peso + percentual de gordura + massa muscular + alimentação + exames + saúde metabólica.
QUEM PODE USAR?
Isso depende do medicamento e da indicação aprovada.
De forma geral, esses medicamentos podem ser indicados para determinadas pessoas com:
obesidade;
sobrepeso associado a problemas de saúde relacionados ao peso;
diabetes tipo 2;
determinadas doenças cardiovasculares, conforme o medicamento e sua indicação;
outras condições específicas previstas em bula.
A indicação não deve ser feita apenas porque alguém deseja perder alguns quilos.
O médico precisa avaliar se existe realmente uma indicação clínica.
QUEM NÃO DEVE USAR?
As contraindicações variam conforme o princípio ativo e o produto.
Entre os principais alertas presentes nas bulas de alguns medicamentos estão:
Histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide
Para medicamentos como semaglutida e tirzepatida, há contraindicação em determinadas situações envolvendo carcinoma medular de tireoide e síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2.
Esse alerta está destacado nas informações de prescrição desses medicamentos. (FDA Access Data)
Também existem situações que exigem avaliação médica especial, como:
histórico de pancreatite;
determinadas doenças gastrointestinais;
problemas renais;
alterações da vesícula biliar;
uso concomitante de determinados medicamentos;
gravidez, dependendo do medicamento;
histórico de reações alérgicas ao princípio ativo ou componentes.
Por isso, nunca se deve iniciar o tratamento apenas porque um amigo, conhecido ou influenciador está usando.
OS EFEITOS COLATERAIS MAIS COMUNS
Os efeitos adversos mais conhecidos estão relacionados ao sistema gastrointestinal.
Entre eles:
Em muitos pacientes, esses sintomas aparecem principalmente durante a adaptação ao tratamento.
Mas isso não significa que todos terão os mesmos efeitos.
QUANDO O ALERTA FICA MAIS SÉRIO?
Existem complicações que exigem atenção médica.
A Anvisa destaca especialmente o risco de pancreatite aguda, uma inflamação do pâncreas que pode ser grave. (Serviços e Informações do Brasil)
Sinais de alerta:
Dor abdominal intensa e persistente, especialmente quando pode irradiar para as costas, acompanhada ou não de náuseas e vômitos.
Diante desses sintomas, a recomendação é procurar atendimento médico imediatamente.
OUTROS PROBLEMAS POSSÍVEIS
Dependendo do medicamento e das características do paciente, também podem ocorrer:
desidratação;
alterações da função renal, especialmente associadas à perda de líquidos;
problemas na vesícula biliar;
hipoglicemia, principalmente quando combinados com determinados medicamentos para diabetes;
alterações gastrointestinais importantes;
reações alérgicas;
complicações relacionadas a procedimentos que utilizem anestesia, devido ao atraso do esvaziamento gástrico.
A Anvisa também já publicou alertas relacionados a riscos específicos dessa classe de medicamentos, demonstrando que o acompanhamento de segurança continua sendo realizado. (Serviços e Informações do Brasil)
O PERIGO DAS “CANETAS MILAGROSAS”
Existe outro problema que merece atenção:
Produtos vendidos pela internet ou de origem desconhecida.
Em 2026, a Anvisa determinou a apreensão e proibiu a comercialização, distribuição, importação e uso de produtos como Gluconex e Tirzedral, que eram divulgados como medicamentos injetáveis de GLP-1, mas não possuíam registro, notificação ou cadastro na Agência. (Serviços e Informações do Brasil)
Isso significa que o consumidor pode nem saber exatamente o que está colocando dentro do próprio organismo.
Produto sem registro e de origem desconhecida não oferece as mesmas garantias de qualidade, segurança e eficácia de um medicamento regularmente aprovado.
E AS CANETAS MANIPULADAS?
Esse também é um assunto que exige cuidado.
A Anvisa estabeleceu regras relacionadas à importação e manipulação de insumos utilizados nesses medicamentos e vem intensificando a fiscalização sobre irregularidades envolvendo agonistas de GLP-1. (Serviços e Informações do Brasil)
O consumidor deve desconfiar de produtos vendidos como versões “milagrosas”, especialmente quando não existe identificação adequada, origem conhecida, registro sanitário ou prescrição.
PARAR DE TOMAR SIGNIFICA ENGORDAR NOVAMENTE?
Pode acontecer.
A obesidade é uma doença crônica e o tratamento não deve ser encarado simplesmente como uma “dieta temporária”.
Quando o medicamento é interrompido, o apetite pode voltar e parte do peso perdido pode ser recuperada.
Por isso, o objetivo do tratamento não deve ser apenas:
“Quanto eu consigo emagrecer?”
Mas também:
“Como vou manter esse resultado?”
Alimentação equilibrada, atividade física, sono adequado e acompanhamento profissional continuam sendo importantes.
O GRANDE ERRO: USAR POR CONTA PRÓPRIA
A popularização dessas substâncias criou um fenômeno perigoso.
Pessoas que não necessariamente possuem indicação médica passaram a procurar as canetas simplesmente porque querem perder peso rapidamente.
E aí surge o problema:
o medicamento deixa de ser uma ferramenta terapêutica e passa a ser tratado como produto de estética.
A Anvisa reforça que esses medicamentos devem ser utilizados de acordo com as indicações aprovadas e sob prescrição e acompanhamento de profissional habilitado. (Serviços e Informações do Brasil)
No Brasil, desde 2025, os medicamentos agonistas de GLP-1 passaram a ter regras mais rígidas para venda: a receita deve ser apresentada em duas vias e fica retida na farmácia ou drogaria. (Serviços e Informações do Brasil)
ENTÃO, AS CANETAS SÃO MOCINHAS OU VILÃS?
Nem mocinhas. Nem vilãs.
São medicamentos.
E, como qualquer medicamento potente, podem trazer benefícios importantes quando utilizados corretamente, mas também podem causar problemas quando utilizados de maneira inadequada.
A mesma substância que pode ajudar uma pessoa com obesidade ou diabetes a controlar uma doença pode representar riscos quando utilizada sem indicação, sem avaliação clínica ou em doses inadequadas.
A verdadeira vilã pode ser a automedicação.
E a verdadeira “mocinha” pode ser a informação.
ANTES DE USAR, PERGUNTE:
Eu realmente preciso desse medicamento?
Tenho indicação médica?
Qual é o princípio ativo?
Esse produto possui registro e procedência confiável?
Quais medicamentos eu já utilizo?
Tenho alguma doença que pode aumentar os riscos?
Como será feito o acompanhamento?
O que acontecerá quando o tratamento terminar?
Essas perguntas podem ser muito mais importantes do que simplesmente perguntar:
“Quantos quilos eu vou perder?”
CONCLUSÃO
As canetas emagrecedoras mudaram a maneira como a medicina encara o tratamento da obesidade e trouxeram novas possibilidades para pacientes que enfrentam dificuldades para controlar o peso.
Mas a popularidade dessas substâncias também trouxe um problema: a transformação de medicamentos de prescrição em fenômenos de internet.
Não existe atalho completamente livre de riscos.
Emagrecer pode ser necessário para melhorar a saúde, mas o tratamento precisa considerar o organismo inteiro.
A caneta pode fazer parte desse caminho.
Mas ela não deve ser encarada como mágica.
**Antes da caneta, vem o diagnóstico.
Antes da aplicação, vem a avaliação.
Antes da promessa de emagrecimento, vem a responsabilidade.**
Caneta emagrecedora: mocinha ou vilã?
Talvez a resposta mais correta seja:
Ela pode ser uma grande aliada — desde que esteja nas mãos certas.
Fonte: https://panoramaconexaonews.blogspot.com
Por André Nascimento — Jornalista
Panorama Conexão News
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